terça-feira, 22 de novembro de 2016

O tabu do suicídio na imprensa

O tabu do suicídio na imprensa
Por Luan Toja e Mariana Rothman


Muitos talvez não saibam, mas um dos nossos maiores problemas de saúde pública ainda é tratado pela sociedade como tabu. Segundo o relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil é o oitavo país no mundo e o quarto na América Latina com maior número de suicídios. Entre 2000 e 2012 foi registrado por aqui o maior índice de aumento em mortes voluntárias. Neste intervalo, foram quase 15 mil, e o número só cresce, sobretudo, entre os mais jovens.
Ilustração retirada da internet
Nos últimos dez anos, a taxa de suicídio teve alta de 40% entre brasileiros de 15 a 29 anos - 
crescimento maior do que o da média da população - tornando-se a segunda maior causa de óbitos de pessoas em plena vida produtiva. Essa curva ascendente vai contra a tendência observada em países desenvolvidos, cujos números declinaram após a realização de campanhas de esclarecimento. Isso mostra a necessidade de discutir-se o tema no Brasil, pois uma das maiores dificuldades em abordar o problema gira em torno deste tabu social que resiste desde o começo da civilização. Séculos atrás, os corpos dos suicidas eram enterrados sob montes de pedras. Agora são empurrados para trás de um muro de silêncio.


Este assunto não provoca discussões na mídia, e na visão, inclusive, do Ministério da Saúde, essa falta de mobilização da imprensa vem erroneamente o menosprezando, como se ele, de fato, não existisse. “Nas redações, tem-se a ideia de que a difusão do suicídio incitaria pessoas que já sofrem com graves problemas psicológicos de depressão. Mas isso é uma coisa velada, curiosamente, isso não é falado abertamente por lá, não há uma regra estabelecida em manual”, ponderou Geraldo Mainenti, ex-coordenador da equipe de jornalismo da GloboNews.


De tantas vítimas que fez, o 10 de setembro tornou-se o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. Data criada em 2003 especialmente para alertar às diversas formas que existem para se evitar o suicídio, este ano celebrada com o lema "conectar, comunicar, cuidar".
Tarcísio Souza (Foto: Luan Toja)
Informar e elucidar sobre o tema pode, até mesmo, evitar a consumação do ato, pois, geralmente, potenciais suicidas, emitem sinais antes de praticar qualquer ação fatal. Tais pessoas tendem a se envolver em comportamentos autodestrutivos, como o uso de drogas ou álcool sem moderação, que assim como contribuem para a violência contra o próximo, também pode desencadear em agressões contra si mesmo. Tal qual o caso de Tarcísio Souza, 28 anos, que após o término de seu namoro, em 2011, chegou a tomar delicadas atitudes irrefletidas: “Passei a achar que só uma coisa poderia me fazer bem, mas que, na verdade, era o que mais me fazia mal. Acabei perdendo a graça no sentido da vida, fiquei cego, só tinha ela na cabeça e me tornei um depressivo autoflagelante”, contou.



Efeito Werther

A imprensa evita publicar suicídios temendo o que os especialistas chamam de "efeito Werther". O nome remete ao personagem de um livro de Goethe, publicado em 1774. “Os Sofrimentos do Jovem Werther” relata a história de um jovem apaixonado por Charlotte, mulher casada e feliz. Werther, inconsolável, se mata. Historiadores relatam que o livro foi proibido em vários países por causa de uma súbita epidemia de suicídio entre jovens.
Além disso, uma pesquisa do Ipea (agosto de 2013), afirma que “a mídia é o terceiro motivador de suicídio, depois do desemprego e violência”. Segundo o estudo “O modelo estimado mostra que o aumento de 1% em citações na mídia eleva a taxa de suicídio de homens jovens (idade entre 15 e 29 anos) em 5,34%”. Há também outras razões bem práticas e compreensíveis para a ocultação do assunto: amenizar o inevitável sentimento de culpa dos familiares e amigos próximos do morto, respeitar a privacidade de sua dor, implicações securitárias etc.

O efeito contágio existe, diz o médico D'Oliveira, do Ministério da Saúde, especialmente quando um astro pop ou um líder carismático tiram a própria vida. Os jovens são o grupo mais vulnerável e influenciável. No entanto, a mensagem que o Ministério da Saúde quer passar é que, seja qual for o motivo, o suicídio é um fenômeno crescente na sociedade desenvolvida, mas pode ser evitado. É essencial que não se oculte o problema e que sejam aplicados os planos de prevenção elaborados pelas autoridades da saúde, e que mal são cumpridos. "Não falar, não debater, não mostrar que esse é um problema de saúde pública só agrava o quadro", afirma D'Oliveira.

Cássia Chaffin doutora em Psicologia
E essa prevenção só se faz, justamente, com informação. Contudo, a imprensa apenas reflete a sociedade à qual ela serve, e esse corpo social tem medo de tocar no assunto. Parte do silêncio ainda se deve à crença de que o relato de casos pode ajudar a criar uma espécie de efeito Werther, mas essa quase unanimidade está sendo rompida pela visão de que é melhor debater o problema que se esconder dele. Começa a construir-se um consenso no qual não se pode mais negar atenção ao suicídio. “Limitada por conceitos morais e religiosos a imprensa brasileira evita até abordar temas como a eutanásia e a morte assistida, que outros países discutem e inclusive autorizam” lembrou Cassia Chaffin, mestre em Comunicação Social e doutora em Psicologia.

“Se pudermos assistir melhor as pessoas em crise identificando risco e tomando medidas protetoras, estaremos lidando melhor com o suicídio, realizando sua prevenção em um nível estritamente necessário”, completou.













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