terça-feira, 22 de novembro de 2016

Precisamos de mais muros?


Precisamos de mais muros?
Por Amanda Pareico

O governo do Reino Unido anunciou na quarta-feira, sete de agosto, a construção de um muro na cidade francesa de Calais. Orçada a 2,7 milhões de euros, a obra deverá ser concluída até o final deste ano. O objetivo é bloquear a entrada de refugiados em solo britânico.

Conhecido pela imprensa internacional como “A Grande Muralha de Calais”, o muro terá quatro metrôs de altura por um quilômetro de extensão. Será construído em parceria com o governo Francês, na estrada que dá acesso ao porto de Calais.

Os habitantes do acampamento entram clandestinamente em caminhões que vão até as balsas que atravessam o Canal da Mancha, ligação entre Inglaterra e França. Uma alternativa é percorrer os oito quilômetros que separam o acampamento do Eurotúnel, com auxilio “coiotes”. Porém atravessar o túnel arriscado, pois a vigilância é rigorosa.








Calais recebe refugiados desde 1999, e o atual estado do acampamento é degradante. Vivem lá aproximadamente dez mil pessoas, fugidas das guerras e pobreza no Oriente Médio e África. Este número só aumenta, pois chegam aproximadamente 80 imigrantes por dia no local.


O presidente francês, François Hollande, declarou nesta segunda-feira, 26, que o local será fechado. Sua intenção é transferir os refugiados para pontos espalhados do país. Já a oposição clama por uma atitude mais agressiva, afugentando os imigrantes.


A seguir temos uma entrevista com Otávio Muratori, bacharel em psicologia com especialização em psicologia social.


Pergunta: Você acredita, que com a construção do muro, que os problemas serão resolvidos?


Otávio: Olha, eu acho que a questão dos refugiados, do muramento da cidade, você não vai resolver, porque aquelas pessoas que estão ali não vão desaparecer de uma hora para outra. Então acho que isso não resolve, pois o problema da desigualdade social, da miséria e as condições desfavoráveis para uma saúde física e psíquica dos refugiados não vai ser feita. Você so vai tentar ocultar o lado “feio”, “sujo” da população. O que eles não querem que as pessoas vejam.


P: Que outras alternativas você vê para solucionar esta condição?


O: É muito complicado você pensar num ser humano porque não é um simples manejo de gado que você tira de um lugar e coloca em outro, o problema é mais delicado, mais sutil. Eu acho que deveria haver um investimento massivo para ver a melhor solução.


P: O que procuram os refugiados quando se encaminham à Europa?


O: Bem, eu acho que os refugiados que vão à Europa estão buscando condições de vida onde a existência deles no planeta não seja ameaçada. É uma situação delicada, porque estes refugiados muitos estão vindos de países onde a guerra civil é extremamente um algoz muito presente, são populações que realmente não tinham muita alternativa, ou era abandonar seus paises pra tentar uma outra vida correndo grandes chances de morrer no caminho, ou então de lugares onde a miséria é tão grande que enfim. Você vê, é uma questão tão delicada que você observa que muitas vezes mães e pais mandam seus filhos, quer dizer, pessoas separam-se de seus filhos na tentativa de dar um futuro para eles, e você pode nunca mais vai ver essa criança, e mesmo assim você tenta tirar ele dali.


P: Qual é o prejuízo causado por refugiados no solo Europeu?


O: Há uma alteração na economia, porque você obviamente esta abrigando pessoas que você inicialmente não tinha, você está tendo que receber essas pessoas. Há um problema antropológico, porque a gente observa que a influencia dos imigrantes, como a população de imigrantes tem crescido muito, a cultura europeia, eles tem medo de se dissolver. Eu acho que alias esse é o maior medo da Europa. Essa construção do muro é uma desconsideração ao próximo, é você simplesmente pensar numa estética que fique melhor para si. É você pensar que você tem uma cultura, uma forma de viver, que você tem um modo de pensar que é superior ao dessas outras pessoas que estão em condições desfavoráveis, é uma desconsideração com o próprio ser humano.


P: Você acredita que realmente precisamos de mais muros?


O: Olha, eu acho que esta questão da segregação, como eu disse antes, é muito complicada e ela não acontece só no imigrante de outro pais, podem ser imigrantes no nosso caso, o imigrante nordestino que sofre grande preconceito, para além disso é o imigrante dentro da própria cidade, o diferente, uma pessoa que vive em uma situação completamente diferente da nossa, então a gente vê no próprio rio de janeiro uma segregação enorme da população negra e há um extermínio de várias dessas pessoas por ano e ninguém se sensibiliza por isso. Pessoas em situação de rua, que são movidas de acordo com interesse politico de alguém para deixar determinado lugar mais bonito. Nos jogos olímpicos você não encontrava moradores de rua do centro não estavam lá. Eu acho esse isolamento só serve para mascarar o problema, para omitir a verdade, porque a verdade não é nada bonita, mas ela acontece todos os dias. Não tem como esconder, passar um apagador magico, é uma solução que não pode ser tomada de uma hora para outra, não é uma coisa que você simplesmente vai solucionar repentinamente, é uma coisa que exige tempo, tem que ser planejado com cautela para não ferir o direito e a vontade do outro. É muito fácil pensar: “vamos dar moradia para os moradores de rua”. Mas onde vai ser essa moradia? Essa pessoa realmente quer morar em algum lugar, nesse lugar? A escolha da pessoa é muito importante, a autonomia dela poder escolher é essencial para você pensar num futuro mais humano, você garantir um mínimo de direito de saúde tanto mental quanto física. Para mim saúde não é só ausência de doenças, para mim saúde é um contexto muito maior, é algo que exige grande prevenção, você pensar em sentimentos, condições de vida, tudo isso afeta a condição da saúde. Então para você cuidar dessas pessoas você não pode simplesmente impor a elas a se adequarem ao modelo. Então se você mora na rua além de te dar moradia vamos te colocar neste emprego. Mas espera ai, a pessoa realmente quer fazer isso? O que é isso, um trabalho forçado? Qual o sentido de você privilegiar certos grupos enquanto outro você deixa distante? O bandido também é uma pessoa, o refugiado também é uma pessoa. E eu acho que essa preocupação com o diferente de aceita-lo é essencial para que haja uma maior harmonia, porque o problema é evidente, mas a muitas coisas por trás que acabamos não vendo.











          


Nenhum comentário:

Postar um comentário